
Junho Vermelho: o protagonismo da Enfermagem no fortalecimento do SUS e a corrida pela vida no inverno gaúcho
Da descoberta científica dos grupos sanguíneos aos desafios diários nas unidades de coleta, entenda o fluxo da doação de sangue e confira a rede de hemocentros do Rio Grande do Sul.
No cotidiano da saúde pública, nós sabemos que o cuidado de excelência transcende a beira do leito; ele passa pela educação em saúde, pela mobilização da sociedade e pela defesa intransigente do Sistema Único de Saúde (SUS). Neste mês, a Associação Brasileira de Enfermagem - Seção Rio Grande do Sul (ABEn-RS) promove a campanha educativa "Junho Vermelho: 1 doação, 4 vidas".
Nós, enfermeiros, técnicos e estudantes, que atuamos na linha de frente da triagem hematológica e da assistência segura, temos o dever de compartilhar informação com embasamento científico. Para compreender a dimensão dessa campanha, é preciso traçar uma linha do tempo que conecta a história da ciência aos desafios atuais dos nossos hospitais.
A origem dessa mobilização remonta a um marco científico fundamental. O dia 14 de junho é celebrado como o Dia Mundial do Doador de Sangue, data instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em homenagem ao nascimento do biólogo Karl Landsteiner, o pesquisador que descobriu os grupos sanguíneos do sistema ABO. Aproveitando a força desse momento, o Brasil criou o Junho Vermelho para estender a conscientização por todo o mês.
Avançando no tempo e observando a nossa realidade regional, o mês de junho também marca a chegada do inverno rigoroso ao Rio Grande do Sul. É justamente nesse período que os hemocentros acendem um alerta, pois as doações voluntárias chegam a cair até 30%. Esse declínio nos estoques ocorre devido ao aumento da incidência de viroses, como gripes e infecções respiratórias, que inabilitam temporariamente milhares de doadores, somado às baixas temperaturas, que reduzem a circulação de pessoas nas ruas e, consequentemente, o fluxo nas unidades de coleta.
Apesar dessa queda nas doações, a demanda nos serviços de urgência e nas unidades de internação permanece alta, e muitas vezes aumenta por conta do período de férias. É nesse cenário que o nosso trabalho técnico e educativo ganha ainda mais relevância. O nosso lema não é por acaso: após a coleta, uma única bolsa de sangue é fracionada em diferentes hemocomponentes — como hemácias, plaquetas e plasma —, sendo capaz de salvar a vida de até quatro pacientes.
Para garantir que esse sangue chegue com segurança a quem precisa, o país conta com uma rede pública altamente regulada. O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) fiscalizam e asseguram a rigidez dos protocolos de segurança. Em nosso estado, a captação é coordenada pelo Hemocentro do Estado do Rio Grande do Sul (HEMORGS), atuando de forma paralela a complexos hospitalares filantrópicos e universitários que também realizam um trabalho incrível no gerenciamento de seus próprios bancos de sangue.
A importância da triagem clínica e os critérios para doação
Antes de mobilizarmos a nossa comunidade, é essencial dominarmos os critérios técnicos de elegibilidade para orientarmos corretamente os pacientes e a população.
Os requisitos básicos exigem que o doador tenha entre 16 e 69 anos (menores necessitam de autorização dos responsáveis), pese no mínimo 50kg, esteja em boas condições de saúde, tenha dormido pelo menos seis horas nas últimas 24 horas e não esteja em jejum, recomendando-se evitar alimentos gordurosos. Vale ressaltar que a idade limite para a primeira doação é de 60 anos.
Durante a triagem, avaliamos também os impedimentos temporários e definitivos. Casos de gripe ou febre exigem um intervalo de sete dias após o fim dos sintomas. O consumo de bebida alcoólica ou o uso de maconha demandam uma espera de 12 horas. Procedimentos como tatuagens, micropigmentação ou colocação de piercing inabilitam o doador por um período que varia de seis a doze meses. Pessoas gestantes não podem doar, e as lactantes são liberadas apenas se o parto tiver ocorrido há mais de 12 meses. Já os impedimentos definitivos incluem portadores da Doença de Chagas, dos vírus HIV, HCV, HBC e HTLV, além de indivíduos com histórico de uso de drogas injetáveis.

Onde doar no Rio Grande do Sul?
Para garantir a efetividade da nossa campanha e o abastecimento estratégico dos hospitais vinculados ao SUS, organizamos a lista da rede pública do estado. Recomendamos que os doadores realizem o agendamento prévio pelo telefone ou site da unidade escolhida, o que ajuda as instituições a organizarem seus estoques e evita filas. Confira os locais:

Se você não se enquadra nos critérios clínicos para doar neste momento, lembre-se: a rede de doação vai muito além do ato de estender o braço. O seu papel continua sendo indispensável. Seja um multiplicador de informação, engaje seus colegas de plantão ou de faculdade e promova a saúde coletiva. Lutar por estoques abastecidos é lutar pela garantia da saúde universal de qualidade.
Por: Gael Oliveira03/07/2026